Pensamentos – Marco Aurélio

Marco Aurélio, que comandou o mundo no último grande momento de Roma, personificou o sonho de Platão: o imperador filósofo.

Ninguém poderia tornar realidade o sonho utópico de Platão com tanto esplendor. Como imperador, Marco Aurélio (121 – 180 d.C.) conduziu uma Roma já ameaçada a um período dourado.

Como filósofo, escreveu, em geral em acampamentos de guerra, palavras cuja sabedoria doce e resistente desafia a passagem do tempo.

Eram reflexões para si próprio, frases curtas e não obstante profundas que giravam, basicamente, sobre a efemeridade da glória e da vida.

Um discípulo, depois da morte de Marco Aurélio, juntou-as num pequeno grande livro ao qual deu o nome de Meditações, que se transformaria num patrimônio da humanidade.[1]

A seguir, alguns pensamentos, meditações e reflexões desse nobre imperador:

1 — De meu avô Vero, recolhi lições de cortesia e serenidade imperturbável.

2 — Da fama que deixou e do que dele me lembro, herdei de meu pai uma lição em que se conjugam discrição e caráter viril.

3 — De minha mãe me veio o exemplo de piedade e ânimo dadivoso e de fugir não só de fazer mal, mas de nem sequer demorar o pensamento no que é mal; e ainda a lição de uma vida simples, avondo distanciada da que levam os ricos.

4 — Boa lição me deu meu bisavô em não ter frequentado escolas públicas e ter beneficiado de bons mestres ao domicílio; e ter compreendido que para tal é mister gastar bom dinheirinho.

5 — De meu preceptor, com não ser pelos verdes nem pelos azuis e a ser indiferente a escudos longos ou mais curtos, ensinou-me a arrostar com as dificuldades e a encurtar o elenco das necessidades, a desenrascar-me por mim, a não me enliçar em coisas inúteis e a repelir a calúnia.

6 — De Diogneto me terá vindo o horror à bagatela, o não me fiar no que dizem os que fazem prodígios e os charlatães acerca de encantamentos e meios de sacudir demônios e semelhantes embustes; não me dar à criação de codornizes nem me engodar com tais ninharias; gostar da franqueza; ter-me familiarizado com a filosofia; e ter seguido primeiro as lições de Baquio e a seguir as de Findase e de Marciano; ter escrito diálogos em verdes anos; gostar de um leito de campanha térreo com uma simples pele a cobrir, e tudo o que diz com o regime de educação dos Gregos.

7 — De Rústico, o ter concebido a ideia de que o meu caráter precisava de retidão, disciplina e vigilância a todas as horas; aprendi com ele a não me enliçar na paixão da sofística; a pôr-me a mil léguas de escrever tratados cheios de muita teoria ou escrevinhar compêndios oratórios que visam persuadir os tolos; e a fugir de embasbacar o mundo com estadear obras de beneficência; e a dar de mão à retórica, à poesia e ao
estilo precioso; e a não andar feito parvo vestido de toga em casa nem coisa que se lhe pareça; e a escrever as minhas cartas com simplicidade como a que ele escreveu de Sinuessa a minha mãe; a estar sempre pronto a reconciliar-me com os que por palavra ou ação me hajam ofendido logo que eles esboçarem desejo de reconciliação; a ler com pausa sem me contentar com uma olhadela por cima da burra; e a não dar assentimento a pessoas que tagarelam a trouxe-mouxe; devo-lhe ainda o ter lido as obras de Epicteto, livros da sua biblioteca pessoal.

8 — De Apolónio aprendi a independência e a decidir-me por mim sem recurso aos dados; e a não me guiar, um instante que seja, senão pela luz da razão; manter a calma sob o rijo aguilhão das dores, como a perda de um filho ou as longas doenças; nele pude ver claramente um exemplo vivo de como se pode aliar a doçura à maior energia; as suas exposições eram sempre um modelo de clareza; tive a sorte de conhecer um homem que julgava o menor de seus dons a experiência e a habilidade em transmitir o que sabia; com ele aprendi a receber os presentes interesseiros sem venda nos olhos, mas também sem os declinar com grosseria.

9 — Sexto deu-me a lição de benevolência e o exemplo de uma família patriarcal; a concepção da vida conforme à natureza; a gravidade sem afetação; a solicitude sempre desperta pelos amigos; a tolerância para com os tolos e o não fazer caso dos que largam sentença sem pinga de reflexão; a arte de se adaptar a gente de todo o feitio; conversá-lo era encanto que nenhuma adulação igualava, todos sentindo por ele, enquanto o ouviam, o mais profundo respeito; a perícia para descobrir com precisão e método e a dispor em boa ordem os princípios necessários à boa conduta da vida; não dar mostras, em tempo algum, nem de cólera nem de nenhuma outra paixão, mas possuir um caráter calmo e ao mesmo tempo afetuosíssimo; o gosto de louvar com discrição; e uma erudição enorme
sem resquício de pedantismo.

10 — De Alexandre, o Gramático, aprendi o desamor de criticar por criticar; não cair com termos injuriosos em cima do infeliz a quem escapou um barbarismo ou solecismo ou qual quer outro lapso; mas sugerir certeiramente o único termo correto, como quem não quer a coisa, ao fio de uma resposta ou de um complemento
explicativo ou de um debate em comum sobre o fundo da questão e não sobre a forma ou por qualquer outro meio de sugestão indireta que a propósito viesse.

11 — De Frontão me veio o ensinamento de quem tinha observado até onde chega a inveja, a duplicidade e a hipocrisia dos tiranos; demais vira ele que, quase sempre, estes figurões a quem entre nós chamamos patrícios o mais das vezes não albergam chama de afeto.

12 — De Alexandre, o Platónico, aprendi que se não deve dizer muita vez e sem necessidade, de palavra ou por carta, que estamos muito ocupados e furtarmo-nos assim constantemente aos deveres que as relações sociais impõem sob pretexto de que estamos sobrecarregados de ocupações.

13 — E Catulo, que me ensinou ele? A não sacudir um amigo que se queixa de nós, mesmo se, no caso, a queixa não tem fundamento, mas tentar restabelecer as relações como dantes; dizer bem dos mestres sem contrafações, como é fama faziam Domício e Atenódoto; e amar com amor verdadeiro os próprios filhos.[2]

[1] As Lições de Marco Aurélio

[2] Boletim Evoliano 

 

 

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